sexta-feira, 25 de abril de 2008

Eu sou neguinha (ou: O Rock'n'Roll Contra o Preconceito)

Em meados da década de (19)40, um menino loiro de olhos azuis saía do barraco onde morava com seus pais, atravessava a linha de trem que cruza a cidade de East Tupelo, no estado de Mississippi, EUA, e ia ao bairro negro do município para, embevecido, ver e ouvir bluesmen e pregadores batistas.

Em contrapartida, em sua casa, o rádio vivia sintonizado nas estações da "boa e legítima música branca", o country (and western) e o gospel.

Se hoje isso não configura nenhuma proeza, não se esqueçam de que estamos falando da região mais profunda do sul dos Estados Unidos da América. De um país onde, até 1964, os banheiros, as escolas e tudo o mais eram movidos à segregação "racial" (- eu prefiro o termo "étnica", já que raça é só uma: a raça humana). Rosa Parks faria a diferença, num ônibus lotado, escancarando geral.

Lá, no famoso Delta do Mississippi, havia um pessoalzinho que andava de túnicas e capuzes brancos, e cuja maior e orgástica diversão era tocar fogo numa cruz gigante enquanto linchavam uma ou mais pessoas de cor diferente da cor de suas indumentárias.

Poucos anos antes daquelas incursões do rapaz branco pelo "bairro proibido", ali pertinho, no Estado da Geórgia, um outro rapaz, negro e cego, nutria uma paixão brutal pela música rural de seus opressores.

Estas influências viriam a fazer de ambos dois dos maiores artistas musicais de todos os tempos.

Já nos anos 50, o então adolescente loiro chega à Memphis, no vizinho Estado do Tennessee. A cidade de quase 500 mil habitantes, que recebia gente como o escritor William Faulkner (que sempre se hospedava no Peabody Hotel), rivalizava com Nashville pelo título de Meca da música austral estadunidense (e, aqui, não cito a New Orleans pré-Katrina, pois a influência francesa - "creole" - por lá era muito maior).

O outro, o jovem negro, já se havia subido ao norte, rumo aos nichos jazzeiros e do rythm'n'blues de Chicago e redondezas (assim como o grande Satchmo fizera quase trinta anos antes).

Em Memphis, o rapaz loiro, só para manter as origens, passa a freqüentar a Beale Street, no distrito mais visitado pelos artistas negros da cidade, e, quando o dinheiro mirrado permitia, comprar roupas espalhafatosas na loja dos irmãos Lansky. Sem nunca sequer ter ouvido falar em G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira (fundada mais de meio século antes), o moço trajava ultrajantes (para a época) combinações de verde-e-rosa, rosa-e-verde; usava cabelos compridos e cultivava bem-aparadas costeletas - tudo coisa de "nigger", como dizia o pessoal de lá, antes dos tempos da "correção política". O artista negro e cego andava às voltas com as brumas reimosas da heroína e encantava a tudo e a todos.

Por vestir-se e portar-se como um negro, o rapaz loiro teve muitos problemas nas escolas que freqüentou. Mas, o que era um "problema", que o segregava dos seus, veio a tornar-se sua redenção.

Todas aquelas influências acumuladas desaguaram num turbilhão que varreu o pequeno estúdio da Sun Record Company, quando, em 13 de julho de 1954, ao fazer uma jam-session com a canção "That's All Right Mama", o rapaz e os dois músicos que o acompanhavam (os seminais Scotty Moore, guitarrista, e Bill Black, baixo-de-pau) lançaram a pedra fundamental do viria ser denominado pelo disk-jockey local Dewey Philips (nenhum parentesco com o dono da Sun Records, Sam Philips) como "Rock and Roll".

Com o sucesso planetário, além de "corrompedor dos bons costumes", o rapaz foi até chamado de "comunista", pois umas das primeiras coisas que comprou foram um conversível vermelho e um Cadillac rosa - ora vejam!

Não quero me deter em mais do que batidas análises musicais sobre o tema. Penso que o mais relevante de tudo isso que aconteceu (e só aconteceu, claro, porque os EUA saíram vencedores da II G.G.) foi o fato de que (ao menos) uma barreira secular estava sendo rompida pela mais universal das línguas: a música.

A intransigência racial fora contestada. Moças e moços brancos tomavam conhecimento de uma cultura vizinha e proibida. Branco cantando como negro, negro cantando como branco. Uma miscigenação de roupas, culinárias e costumes. Um "tsunami" sociológico imprevisível, cujas boas marolas ainda far-se-iam sentir mais de uma década depois, com o advento da contracultura e do "flower-power".

Consciente ou inconscientemente, nisto não reside a menor importância. A revolução é um processo incontrolável, a luta é que deve ser permanente (- que me perdoem os trotskistas ferrenhos).

É impossível mensurar os anos que as lutas pelos direitos civis ganharam em economia (de grana e vidas inocentes), por conta da ação desses artistas e dessa tão abençoada música; desse fenômeno alcunhado de "Rock´´n'Roll".

É óbvio que falo de Elvis (Aaron) Presley e de Ray(mond) Charles (Robinson). Poderia citar tantos outros, mas estes dois são os dínamos propulsores da grande nave.

Se Elvis, nos anos 50, era a encarnação de uma revolução; nos anos 60, foi cooptado pelo "mainstream". Nos anos 70, pasmem!, ele tornou-se o próprio "mainstream". Mas a lembrança que fica na memória (e não por acaso foi essa a que venceu a eleição do selo postal comemorativo em sua homenagem) é a daquele rapaz com voz, roupas, repertório e trejeitos de negão.

Ray Charles nos deixou há pouco, e com uma imagem artística de maior integridade. Embora eu creia que em termos de desafios, os de Elvis foram algo maiores.

Quando, numa de suas primeiras coletivas de imprensa, perguntado "se achava coreto cantar música de 'preto'", Elvis, com seu notório sorriso de "curled lip" e boas-maneiras sulistas, despachou o babaca às favas:

- Senhor… De onde eu venho não existe nem preto nem branco. Existe quem tem e quem não tem…

Olavo Dáda

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