🇧🇷 Mantendo o Legado de Elvis desde 1974 🇵🇹Atualizado em 22/08/2026

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Elvis, o branco de alma negra

"Ele (Elvis) ensinou a América branca a se ajoelhar" (James Brown)

As décadas de 50, 60 e meados de 70 na América e no resto do mundo, foram marcadas por intolerância e conflitos raciais que dividiram a América entre uma maioria privilegiada (brancos ricos) e uma minoria massacrada, humilhada e acuada em guetos sujos e sombrios (os negros miseráveis). A música e a religião eram os únicos meios que estas pessoas tinham de expressar os seu sentimentos e faziam isto melhor do que ninguém!

O que conhecemos hoje como Rock'n'Roll, já existia muitos anos antes dos primeiros rockers brancos surgirem nas paradas de sucesso. O Blues e o Rhythm & Blues já eram manias entre a juventude negra desde o final da década de 30 e começo de 40, porém só eram tocadas em rádios especializadas (havia muito poucas) em "race music" e poucos brancos tinham acesso a estas gravações. A Sun Records (a primeira gravadora de Elvis) era uma das poucas e melhores gravadoras deste ritmo que mais tarde recebeu o nome de Rock'n'Roll (que nada mais era do que Blues e/ou Rhythm & Blues cantados por brancos).

Os negros eram obrigados a morar em bairros separados, a estudar em escolas reservadas só para eles (sempre inferiores as dos brancos) e uma série de outras humilhações e privações que pouco se diferenciavam da época em que eram escravos. Estas dificuldades também eram sentidas por imigrantes e por uma parte da população branca que também viviam na pobreza e entre esses uma família de East Tupelo, os Pressley (sim, com dois "s").

Elvis nasceu e cresceu entre a miséria e a pobreza. Nasceu numa "shotguns shacks", uma casa tão pequena que se alguém desse um tiro na porta de entrada o projétil atravessaria toda a casa e sairia pela porta dos fundos sem acertar ninguém. Normalmente estas casas tem três (03) cômodos, porém a dos Pressley's tinham apenas dois (02). A pobreza acabava derrubando as barreiras segregacionais, pois a fome e a humilhação eram sentidas na pele por ambas as raças e Elvis nunca se esqueceu disso.

Durante toda a sua vida, Presley nunca negou a sua origem. Elvis era odiado na década de 50 por levar para dentro das casas e do "mundo dos brancos" aquela música "do diabo" (isto é, "de preto") e suas influências e mensagens. A critica censurava-o dizendo que "soava negro demais". Em sua primeira entrevista numa emissora de rádio, após a execução "That's All Right, Mama" (um blues composto e gravado em 1946 por Artur Big Boy Crudup) sua primeira gravação comercial, o astuto locutor teve o cuidado de perguntar onde Elvis estudou, numa manobra para dizer sutilmente que Elvis era branco, já que a "Humes High School" (escola onde Elvis se formou) não admitia alunos negros.

Elvis era o branco com alma de negro e assim podia cantar a música daquele povo oprimido em lugares que um negro jamais imaginaria pisar um dia! Este foi um marco em toda a carreira de Elvis. Quem imaginaria em pleno ano de 1968 um bailarino negro se apresentando numa das principais emissoras americana e em horário nobre juntamente com outras moças negras entoando e dançando gospel music (lembre-se, 1968 foi o ano em que Martin Luther King foi assassinado exatamente por defender, entre outros, este direito de igualdade)?!? Pois bem, isto aconteceu no "The Comeback Special'68" pela NBC e teve 98% de audiência! Este show marcou a volta de Presley aos palcos e toda a platéia foi selecionada "a dedo", e foram escolhidas belas garotas para ficarem nas primeiras filas, bem próximo ao palco e entre elas haviam moças negras. E as "Sweet Inspirations", grupo vocal formado por negras que acompanharam Elvis de 1968 até a sua morte em 1977?!? Elas se apresentavam e se hospedavam em hotéis luxuosos onde negros, no máximo, eram faxineiros e nunca seriam aceitos na platéia ou, menos ainda, como hospedes! (vide o Show "Aloha From Hawaii" de 1973, transmitido ao vivo de Honolulu para vários países do mundo, totalizando mais de Um Milhão de pessoas).

Você pôde achar que estou exagerando ou "viajando", mas prefiro ficar com as palavras de James Brown, o "king" do Soul: "Ele (Elvis) ensinou a América branca a se ajoelhar" ou nas palavras do próprio Elvis: "Minhas canções exprimem doses de inconformismo e isso eu transmito por intermédio do meu corpo. Na verdade é a minha natureza se exprimindo totalmente. Quem tanto se preocupa com o balançar de minhas pernas, deveria parar, olhar e fazer alguma coisa pelos pobres que quando balançam os seu corpos é, muitas vezes para se aquecer e conseguir enganar o frio..." Pense nisso!!!

Dony Augusto

www.elvisblues.blogspot.com

 

Uma tarde quente...

No sábado, 19 de julho, viajei para o Nassau Coliseum em Long Island para ver Elvis Presley depois de muito tempo. Muita coisa tinha acontecido desde que eu o vi se apresentar em Dayton, em outubro de 73 e eu estava muito preocupado. Haviam vários histórias sobre o quanto ele havia engordado desde o último inverno, problema este causado por algum problema intestinal misterioso. Ele conseguiu perder algum peso, mas ainda estava gordo. Também havia outras histórias sobre problemas em seus olhos. Elvis supostamente estava com glaucoma. Embora eu já o tivesse visto se apresentar por duas vezes, eu não sabia o que me esperava em Long Island.

Estava indo para assistir ao show da tarde e junto comigo foi minha mãe e três amigos. Nenhum deles haviam visto Elvis se apresentar ao vivo. Pouco depois das 14:30 horas as luzes diminuíram e milhares de pessoas estavam em suas poltronas vendo e ouvindo os músicos de Elvis se apresentarem. A audiência desfrutou cada momento, mas você podia sentir a excitação e tensão começando a tomar conta do ambiente quando foi chegando a hora de Elvis se apresentar.

Durante o curto intervalo antes de Elvis entrar no palco, minha mãe comentou: "Eu não posso acreditar que vou vê-lo". As luzes se apagaram e a multidão rugiu em aprovação. A orquestra de Joe Guercio começou a tocar o tema de 2001, todo mundo estava gritando e batendo palmas quando a canção terminou, mas por alguns segundos Elvis não apareceu. Quando ele finalmente surgiu, o coliseu literalmente estourou. A multidão começou a gritar e todos o aplaudiram de pé. Eu nunca vi nada parecido em toda minha vida.

Assim que vi Elvis, deixei escapar um grito...ele nunca pareceu verdadeiramente tão magnífico. Ele não estava tão gordo, não estava tão diferente de quando o vi em Dayton. Seu rosto parecia excepcionalmente jovem. Centenas de flashes pipocavam por todos os lados que, combinando com o frenesi da multidão, fez a cena muito selvagem. Após duas músicas, garotas começaram a lançar objetos no palco, incluindo almofadas, bichos de pelúcia, flores e até canetas.

Ele aceitou todos os presentes com um sincero "obrigado" e então entregou-os aos cuidados de sua namorada que estava ao lado do palco. Eu não tenho certeza se era sua namorada, mas ela estava na esquerda do palco em uma poltrona especial; Nós só podíamos vê-la por trás, era loira e parecia muito bonita. Elvis olhou para ela várias vezes durante o espetáculo, e uma vez disse algo muito rapidamente para ela.

Em determinado momento, uma senhora lançou um bonito cinto vermelho. Ele lhe perguntou se foi ela quem havia feito o cinto, então ajoelhou-se na beira do palco e a beijou enquanto a multidão gritava. Elvis também beijou a testa de um bebê que foi erguido por alguém, mas o maior momento foi quando ele apresentou um garoto de aproximadamente seis anos, vestido com um macacão branco. Ele cantou Teddy Bear, abraçado ao garoto e no final da canção deu um terno beijo em seu rosto. Todo mundo achou aquele gesto muito bonito.

Se há uma coisa em Elvis que me impressionava acima de tudo e de todos, era sua humildade. Ele disse "Obrigado" depois de cada canção. Quando alguém lhe jogava um presente, ele queria ter certeza de que aquela mesma pessoa receberia um de seus lenços. Outra qualidade de Elvis era o respeito com sua platéia. Ele se virou e cantou para todos os lados do Coliseum, não só para quem estava na frente do palco.

Minha mãe chorou quando ele entrou no palco, e quando ela o olhou através do binóculo ela disse: "Oh meu Deus... eu não posso acreditar o quanto ele é bonito!" Ao aproximar o fim do espetáculo, as meninas jogaram sutiãs, uma bermuda feita para Elvis, uma saia e muitos outros objetos. Ele parecia realmente gostar destes presentes e agradeceu a todos. Então ele disse: "Vocês são uma platéia maravilhosa. Por favor, tomem cuidado ao voltarem para suas casas e Deus os abençoe", então ele começou seu tradicional número final, com centenas de mulheres correndo para frente do palco na esperança de ganhar um lenço.

Como já mencionei, sua humildade e educação eram excepcionais. Ele não precisava ter beijado aquele bebê ou aquela senhora e nem aquele garoto no palco. Ele não tinha que falar para as pessoas tomarem cuidado ao voltarem para suas casas e nem pedir para que Deus as abençoasse. Mas ele fez isso sem nenhuma falsidade. Ele fazia essas coisas com muita sinceridade porque amava seus fãs. Ele sabia que sem eles, ele não seria nada.

Quando ele terminou a canção, ele começou a apertar as mãos das pessoas que estavam na frente do palco. Então caminhou de um lado ao outro do palco, de maneira que todos pudessem vê-lo pela última vez. Eu estava emocionado, estava difícil deixar meu assento. Quando saímos do Coliseum, uma das pessoas que estava comigo perguntou: "Quando nós vamos vê-lo novamente?" Aquela pergunta não me deixou surpreso, porque ver Elvis uma única vez não era suficiente.

Eu, pessoalmente, estava muito satisfeito com sua apresentação. Ele esteve muito bem e honestamente, posso afirmar que já vi muitos grupos de rock se apresentarem no país, e de ter participado de vários eventos esportivos e nunca testemunhei esse tipo de excitação de quando Elvis deixou o palco. A intensidade da resposta é difícil acreditar. As recordações deste dia vão ficar sempre em minha vida...

Daniel Spadoni

www.elvisblues.blogspot.com

 

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"Elvis conhecia mais músicas de Blues do que a maioria no ramo" - B.B.King