quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A Atitude em Estúdio

Estar num estúdio a trabalhar, a gravar durante horas e horas seguidas, deve ser cansativo. Também pode ser muito aborrecido e frustrante quando não se consegue obter os resultados pretendidos. Portanto, é natural que às vezes os ânimos baixem um bocado e venha à tona uma má disposição. Mas a atitude que um artista tem em estúdio revela muito da sua personalidade.

O que me inspirou a escrever este artigo foi um documentário que vi na televisão há tempos sobre John Lennon, Yoko Ono e os Beatles. Mostraram várias imagens dos Beatles e só de John Lennon (após a desintegração do grupo) a gravar em estúdio. Não gostei muito do que vi. Não gostei especialmente da atitude de John em estúdio. É claro que ele sabia que as câmeras estavam lá para o filmar para o documentário. A sua atitude negativa podia dever-se a vários aspectos: a) estava a ser rude e antipático porque não gostava da presença das câmeras; b) teve azar em só mostrarem os momentos em que estava de verdadeiro mau humor; ou c) era habitual ele ser assim. Fosse o que fosse, John Lennon estava a gravar uma canção, intitulada Yoko, e tinha de cantar a parte do refrão com um cantor de apoio em dueto. Aparentemente o cantor não estava a fazer o trabalho como ele queria e John explodiu três vezes seguidas, dizendo palavrões, de muito mau humor e sendo muito desagradável com o cantor. Se fosse eu, ficava logo sem vontade de cantar fosse o que fosse e apetecia-me mandá-lo dar uma volta! Só que estes incidentes em estúdio são alguns ossos do ofício de ser cantor ou músico.

Elvis também apareceu neste documentário quando John Lennon canta a canção intitulada I Believe in Yoko and Me. A letra desta canção revela o quanto Lennon estava de facto afectado pela influência de Yoko Ono. Ele mudou radicalmente após tê-la conhecido. Nesta canção, ele diz que não acredita em ninguém, alguns exemplos são John Kennedy e Elvis Presley. Quando canta "I don't believe in Elvis" (não acredito em Elvis) aparecem três imagens rápidas de EIvis On Tour e é a última pessoa em que John Lennon diz que não acredita antes de continuar "Só acredito na Yoko e em mim." Aquilo fez sentir-me triste... Quando os Beatles foram aos Estados Unidos, John Lennon foi o primeiro a dizer que a única pessoa que queria conhecer era Elvis - que o idolatravam demais, que antes dele não tinha havido nada. John Lennon chegou a trocar discos originais dos seus por originais de Elvis da Sun Records para incluir na sua colecção pessoal, e tinha-os pendurados nas paredes da sua casa. Quando John deu um concerto em Madison Square Garden, cantou uma versão muito pessoal de Hound Dog (e que, por sinal, não gosto nada) e, no meio, chega a gritar, "Elvis, I love you!" - que é o que gosto mais de ouvir em toda a sua interpretação. Para depois este mesmo John Lennon compor uma canção em que diz que já não acredita em Elvis era porque tinha mudado muito...

Mas voltando ao tema deste artigo. A atitude de Elvis em estúdio era diferente - como em tudo o resto, como temos vindo a verificar! De tudo aquilo que já li sobre Elvis (e garanto-vos que já foi alguma coisa) e de todas as pessoas que já ouvi falar dele, quer em filme, quer pessoalmente, nunca encontrei nada que dissesse que a atitude de Elvis em estúdio fosse horrível, ou que fosse horrível trabalhar com ele. O único criticismo relativamente ao trabalho em estúdio era que Elvis, às vezes, chegava atrasado (principalmente nos anos 70) e toda a gente tinha de ficar à espera dele. Mas quanto ao trabalho em si, só encontro exemplos positivos. Eu mesma reuno na minha colecção pessoal muitos exemplos da atitude de Elvis em estúdio, tanto em filme como em áudio. Elvis era brincalhão, divertido, uma pessoa agradável com quem se trabalhar. Myrna Smith, das Sweet Inspirations, disse em 1970: "É maravilhoso trabalhar com ele, é um querido". Tenho uma entrevista com Gordon Stoker, dos Jordanaires, que também é hilariante. Diz ele que, durante as sessões de gravação em que tinha de cantar em harmonia com Elvis e utilizavam o mesmo microfone, tinham obrigatoriamente de ficar muito juntos. Isso podia ser muito complicado! Stoker conta que durante a gravação de AlI Shook Up, há uma altura em que ele não faz "Yeah-yeah, yeah" no coro porque Elvis enfiou-lhe um dedo na boca! Confessa que quase se desmancharam os dois a rir, mas contiveram-se, pois já tinham "estragado" uma data de takes com brincadeiras semelhantes, todas começadas por Elvis. "Ele era o máximo. Fazia-me cócegas, beliscava-me as bochechas, ou espetava-me os dedos nos olhos enquanto eu estava a cantar... Tudo só para ver se eu me conseguia agüentar até ao fim sem rir!"

Claro que momentos também houve em que Elvis não estava particularmente bem disposto e também dizia palavrões. Tenho alguns exemplos na minha colecção. Mas quando isso acontecia, era quando ele (não os outros) não conseguia fazer o que queria. Elvis conseguia ser bastante crítico de si mesmo, mas era incapaz de ter a mesma atitude com as outras pessoas. Uma forma de dizer que não estava satisfeito, era por exemplo, "Bem vos disse que não devíamos ter feito intervalo para o almoço. Eu estava bem embalado antes disso," ou "Desculpem lá, rapazes, já fiz asneira." Quando Elvis dizia que já tinha feito asneira, muitas vezes nem tinha sido ele o responsável. Se o baterista deixava cair a baqueta, se alguém desafinava uma nota, Elvis fazia uma parvoíce qualquer (gritava, fazia barulhos engraçados, soluçava, etc.) para que essa pessoa não se sentisse mal e dizia que tinha sido ele o culpado. Que melhor forma pode existir de pôr uma pessoa à vontade do que esta atitude? Tenho um exemplo na minha colecção que gosto muito e ao qual acho bastante piada. Como Elvis costumava fazer este tipo de coisa com tanta freqüência, os outros já ficavam à espera que fosse ele o responsável por tudo o que acontecia de errado! Durante as sessões de gravação para o filme G.I. Blues, há uma altura em que o produtor pára a gravação e diz, "Elvis, pára de estalar os dedos. Estás a interferir com a gravação." E Elvis diz, com uma voz muito espantada, "Eu estava a estalar os dedos...? Okay, se calhar era eu mesmo. A forma como ele diz aquilo dá a entender que não devia ter sido ele, mas outro qualquer. Mas não se importava de ficar com as culpas. Logo a seguir tiveram de interromper a gravação mais uma vez porque o banco de Elvis chiou! Ele até diz, "Alguém que traga óleo para pôr nesta porcaria! Querem ver que já nem sentado posso estar?"

Chet Atkins, o famoso guitarrista, quando viu Elvis a gravar em estúdio pela primeira vez, ficou deslumbrado. Isso aconteceu logo no início de carreira de Elvis já na RCA. Elvis estava a gravar e Chet ficou tão entusiasmado com o aquilo que viu que foi a correr chamar a sua mulher para vir ver aquilo. O que é que espantara tanto Chet Atkins? Ele nunca tinha visto nenhum cantor a dançar enquanto gravava, tal e qual como se estivesse a dar um espectáculo para um público de adoradores. Claro que Elvis não estava a dar espectáculo nenhum; simplesmente mal ouvia a música e a deixava entrar no corpo, não conseguia controlar os seus movimentos. Era como se a sua voz e a música estivessem directamente ligadas a qualquer dispositivo dentro de si que despoletava toda aquela energia e espontaneidade que tanto espantou Chet Atkins. Diz ele, "Eu também tocava guitarra e isso tudo... Mas nunca tinha sido capaz de dançar daquela maneira, ou de outra maneira qualquer! Tenho a certeza de que se dançasse, não ia ser capaz de tocar nada. Mas Elvis conseguia."

Quando conheci Scotty Moore e D.J. Fontana em Hemsby, na Inglaterra, em 1993, e estive presente durante ambas as entrevistas que este último deu - uma na TVE e outra no Memphis Ballroom - houve uma fã que lhe perguntou se tinha sido aborrecido gravar mais de 30 takes de Hound Dog. E a resposta dele foi rápida e segura, "Nããooo!" Depois prosseguiu por dizer que Elvis era muito engraçado. Era capaz de gravar 30 takes da mesma canção e depois escolher o quinto take para lançar oficialmente! Toda a gente se riu. Podíamos pensar que gravar mais de 30 takes da mesma canção fosse horrível, que isso fosse porque as coisas não saíam bem, ou porque o cantor esta insatisfeito com o resultado dos músicos que o acompanhavam. Mas com Elvis isso acontecia porque ele era um perfeccionista. E quando ele queria gravar mais um take, era sempre delicado e dizia, "Podemos repetir, por favor? Só mais uma vez...?" Como era tão delicado, nem parecia que era ele a pessoa encarregue de toda a sessão, quando era ele e só ele que detinha as rédeas nas mãos. Mas a sua atitude fazia com que todos os outros presentes se sentissem à vontade e satisfeitos por trabalhar com ele. Não consigo imaginar Elvis a ser tão estúpido como John Lennon foi com o seu cantor de apoio naquele documentário que vi na televisão. Lennon disse algo para o cantor de apoio que apareceu na legenda como, "Sua pêga!", mas na realidade ele disse, "Sua c**a!" ao homem e continuou: "E só a m***a de um verso, será que não consegues fazer nada bem?" E a canção era uma canção de amor dedicada a Yoko Ono - nem assim...! Chocou-me um pouco, porque reconheço que John Lennon fez coisas muito bonitas e lamento imenso ter sido morto daquela maneira horrível - cinco tiros no peito, desvaindo-se em sangue pelo caminho e acabando por morrer no hospital. Só tinha 40 anos. Podia ainda ter feito imensas coisas.

Se John Lennon tivesse sobrevivido, talvez ele compusesse outra canção em que dissesse, "Acredito em Elvis," como em tempos tinha acreditado com toda a sinceridade. Quem sabe? Talvez visse que tinha muito a aprender com ele - com os seus erros e com as suas boas acções.

Célia Carvalho - Portugal Elvis 100%

www.elvisblues.blogspot.com

 

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