domingo, 16 de agosto de 2015

A morte após a vida - O descanso eterno de Elvis

Madrugada do dia 16 de agosto de 1977 e Elvis está se sentindo melhor agora, pois o seu dentista conseguiu dar fim a dor que ele sentia em um de seus dentes. Ele está ansioso e agitado, pois no final da tarde do dia seguinte embarca para uma nova turnê. A última terminou a menos de um mês e ele não estava muito satisfeito com suas apresentações e queria muito voltar aos palcos em melhores condições físicas e para isso já havia iniciado um regime para perder alguns quilos extras que havia adquirido nestes 42 anos de vida. Ele tenta dormir, mas não consegue. Já são 10h da manhã e de tanto revirar na cama sem sono, resolve se levantar, pegar seu livro preferido sobre Jesus Cristo e ir até o banheiro ler um pouco. De lá, já saiu sem vida às 14h, quando foi encontrado caído no grosso tapete que forrava o chão.

Oficialmente foi assim que o rei morreu, porém ele já vinha morrendo havia muitos anos, mais precisamente desde 14 de agosto de 1958, o dia em que a sua amada mãe faleceu. Sua mãe era uma mulher muito dedicada e amorosa, que levava o amor até no nome - Gladys Love Smith Presley. Elvis era filho único (seu irmão gêmeo nasceu morto) e tinha todo o amor e dedicação de sua mãe só para ele, e o sentimento era recíproco. Elvis tinha muito respeito e consideração pela sua mãe e seu sonho era poder tirar ela da situação miserável em que viviam. Esse sonho se tornou realidade quando Elvis, com apenas 19 anos, alcançava o estrelato musical. Com os primeiros dólares que começou a ganhar com o sucesso, Elvis procurou logo transformar a vida de sua mãe num conto de fadas. Comprou um Cadilac e mandou pintar todo de rosa e presenteou sua mãe, mesmo ela não sabendo dirigir. Mas isso era apenas um detalhe, ela ganharia também um motorista particular. O próximo sonho a ser realizado seria o de tirá-la da casa pobre onde viviam de favores. Elvis comprou uma mansão e levou todos para morar com ele. Sua mãe agora tinha uma vida de rainha, apesar de fazer questão de manter seus hábitos simples do interior. Tudo parecia perfeito, como Elvis sempre sonhou, mas um duro golpe logo atingiria Elvis. Sua mãe, com a saúde já fragilizada por longos anos de muito sofrimento, adoece e, apesar dos melhores médicos e hospitais que Elvis fez questão de pagar, vem a falecer. Elvis está inconformado. Logo agora que ele poderia dar a ela tudo o que ela merecia e que ele sempre sonhou poder dar? Por que meu DEUS, por que levou minha mãezinha, gritava em agonia o jovem Elvis.

Neste dia, metade de Elvis morreu e a outra metade foi morrendo aos poucos, ano após ano. Ele nunca mais foi o mesmo. O brilho dos olhos foi se apagando e seu quadril já não sacudia mais como antes. A rebeldia deu lugar à melancolia, e seus dias foram ficando cada vez mais escuros e sem sentido. Um vazio sem fim o consumia por dentro e nada seria capaz de ocupar o lugar de sua adorada mãe.

Elvis desde criança era muito sensível e carregava dentro de si uma carga muito grande de sentimentos que ele mesmo não conseguia entender ou explicar. Ele sentia, por exemplo, a presença do irmão gêmeo Jessie Garon (muitas vezes conversava com sua sombra ou com seu reflexo nas águas, afirmando ver o irmão) e carregava consigo a culpa dele ter morrido, mesmo sua mãe sempre afirmando que seu irmão havia nascido primeiro. Porém, após a morte de Elvis, alguns documentos foram achados e foi revelado que ele havia realmente nascido primeiro e, por esse motivo, o irmão não teria resistido a demora em ser retirado do útero e veio a falecer.

Apesar da dor e da tristeza, Elvis precisava seguir em frente. Procurou desesperadamente preencher o vazio deixado pela ausência do irmão e da mãe se entregando completamente à sua carreira e aos seus fãs, gravando e filmando incansavelmente dia e noite, tentando assim manter sua mente ocupada. Mas, apesar de todo seu esforço, sempre lhe faltava algo e o vazio não diminuía e as noites eram cada vez mais longas e a alma de Elvis sussurrava em forma de canção: “precioso Senhor, pegue a minha mão e orienta-me, sustém-me de pé. Estou cansado, estou fraco, estou sozinho. Através da tempestade, através da noite, guia-me até à luz, pegue a minha mão, precioso Senhor, guie-me até em casa!”.

Como dizia a sua avó, a vida dá muitas voltas, algumas boas e outras nem tanto, e foi numa destas voltas que Elvis conheceu Priscilla. Foi paixão à primeira vista, e Elvis sentiu novamente seu coração bater. Elvis tinha certeza absoluta que havia encontrado o grande amor de sua vida, tanto que esperou longos 8 anos até que sua amada, então com 14 anos, completasse a maioridade para que pudessem se casar. Tudo agora parecia estar diferente. Ainda doía, mas Elvis agora tinha os abraços e os beijos de sua amada, o que de certa forma fazia a dor diminuir. Elvis voltou a sorrir novamente - sim, aquele sorrisinho maroto levantando o canto do lábio superior que só ele sabia fazer – e, menos de um ano após o casamento, o amor entre os dois já dava seu fruto e nascia Lisa Marie Presley.

Agora a felicidade estava completa. A tempestade parecia haver passado e Elvis voltava a sonhar e já planeja sua volta aos palcos, o que não fazia desde que foi para o exército. Elvis ficou um bom tempo fora da estrada e muitos agora se autodenominavam rei e já estava na hora dele mostrar a quem de fato pertencia esse título. Ele estava empolgadíssimo e sua volta foi como um tornado, comparado somente ao inicio de sua carreira. Elvis volta às paradas de sucesso, seus álbuns voltam a vender como água no deserto, seus shows batem recordes de público e seus quadris ganham vida própria novamente. The King Is Back, anunciam os jornais de todo o mundo! Mas nem tudo são rosas, há os espinhos, como sua sábia avó também costumava dizer.

A agenda de Elvis estava cada vez mais cheia. Eram horas e mais horas dentro de um estúdio gravando e shows por todo o país. Estava cada vez mais difícil parar em casa, sem contar que por causa dos shows, Elvis acabou trocando o dia pela noite: durante a noite fazia os shows e durante o dia dormia. Priscilla estava cada vez mais insatisfeita com tudo isso. Talvez tenha se apaixonado pelo mito e não pelo ser humano Elvis, mas não quero entrar neste mérito. Pelo menos não neste artigo. Logo a relação vai se desgastando e o próprio Elvis sugere que Priscilla comece a praticar Karatê junto com ele (esporte que ele tanto amava desde jovem), na esperança de que possam ficar mais tempo juntos. A princípio parece que deu resultado, pois Priscilla parecia ter gostado muito da “arte das mãos vazias”. Mas mal sabia Elvis o que o destino lhe preparava. Elvis descobre que o amor de sua vida, a sua esposa, estava lhe traindo com o seu amigo e professor de Karatê.

A vida de Elvis se desmoronou novamente. Logo veio o divorcio e a tentativa de Priscilla de afastar Lisa do convívio com ele. Toda aquela carga de sentimentos que ele achou ter ficado no passado, voltou sobre ele como uma retroescavadeira. Novamente a vida lhe aplicava um duro golpe do qual jamais se recuperaria. Agora estava sem sua mãe, traído pela esposa e longe de sua filha!

Os anos seguintes foram de decadência física, apesar de estar no auge da fama e com a voz madura e perfeita. Nem sua fabulosa apresentação ao vivo via satélite para todo o mundo em 1974 o fez voltar a se sentir como grande Elvis de antigamente. A cada apresentação, apesar de toda sua dedicação e paixão ao que fazia, ficava claro que ele não estava bem. Cada dia mais triste, mais isolado em sua mansão, Elvis havia desistido de ser feliz. Suas canções agora só falavam de saudade, de solidão e de despedida. Ele até o fim de sua vida amou sua única esposa e não escondia de ninguém que havia perdoado a traição e que bastava ela querer que ele voltaria para seus braços. Talvez por isso, mesmo após o divorcio, ele permitiu que ela carregasse seu sobrenome.

É engraçado como o tempo voa, e já é domingo de manhã. Passaram-se quatro anos do seu divorcio e ela não voltou e Elvis está mais triste do que o normal, chorando e pensando em sua mãe que o havia deixado neste mesmo dia, há 19 anos. Porém, toda lágrima, dor e tristeza estavam por findar, e Elvis parecia sentir isso. Dois dias depois, sozinho no banheiro, Elvis reclina sua cabeça e algumas lágrimas borram as páginas do livro que estava em suas mãos. Ele fecha seus olhos cansados e ora baixinho:

“Senhor, ajuda-me a caminhar outra milha, só mais uma milha, estou cansado de caminhar sozinho. Senhor, ajuda-me a sorrir outro sorriso, só mais um sorriso. Sei bem que não vou conseguir sozinho...”

E, ao abri-los novamente, já estava, ao lado de seu irmão gêmeo, nos ternos braços de sua amada mãe. Finalmente Elvis havia encontrado a paz e a felicidade que tanto procurou durante seus 42 anos de vida, e agora seria para sempre, ninguém mais poderia separá-los. DEUS ouviu sua oração e os uniu novamente, por toda a eternidade!

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